Era uma quinta-feira, como qualquer outra, exceto pelo fato de que naquele dia eu teria um encontro. Não um encontro qualquer, fato que eu já sabia antes mesmo do que veio a acontecer, porque era com alguém pela qual eu sentia profunda simpatia, respeito e imaginava ser uma pessoa especial.
Oito da noite, em frente a uma livraria, esses eram o horário e o local combinados. Meu coração estava ansioso como sempre, há dois dias eu literalmente sonhava com o momento, imaginava como seria esse e outros encontros, fazia planos, iria dormir sonhando, sonhava dormindo e acordava sonhando. Cheguei com 20 minutos de antecedência, como é de praxe. Fui diretamente para o local do encontro e esperei lá, imaginando como ela estaria trajada.
20:00 em ponto! Não a vi... ”será que ela não compareceria? Será que ela se esqueceu? Será que eu me enganei novamente?” Resolvi ligar para ela, o celular tocou e ninguém atendeu. Deve estar vindo, por isso não pode atender; foi o que pensei. Resolvi andar um pouco pela livraria, a fim de disfarçar meu temor dela não comparecer. 5 minutos e uma eternidade se passaram, resolvi ligar novamente. Mais uma vez sem sucesso. O temor aumentou. Resolvi andar mais um pouco pela livraria, temeroso de que não a visse. Comecei a pensar em muitas possibilidades. Ela poderia ter se atrasado, se esquecido ou simplesmente desistido. Mas e se ela tivesse esquecido o celular em casa e estivesse me esperando na entrada como havíamos combinado?
Fui diretamente para lá e ao avistar uma mulher com seu vestido branco elegante, deparei-me não simplesmente com ela, mas com a própria imagem de um anjo encarnado com sua túnica branca, simbolizando a pureza. Cabelos longos, encantadoramente cacheados. Olhos de coloração verde suave, duas pequenas janelas de uma alma magnífica. Ela conjugava perfeitamente todo o esplendor do dia e toda beleza da noite. Avancei alguns passos, parei instintivamente ao me aproximar e senti a energia pura que emanava daquele ser.
Depois de um instante de contemplação, aproximei-me mais alguns passos. Chegando o mais próximo que podia naquele momento e aproveitando seu momento de distração com o celular, eu disse: “Boa noite!”, em um tom comedido e simultaneamente alegre. Sua voz soou como uma bela canção aos meus ouvidos, doce e angelical.
Ofereci o braço e ela prontamente aceitou com graciosidade indescritível. Senti o toque da sua carne, o calor do sangue que corria em suas veias. Fui invadido por um êxtase diferente dos que havia sentido até aquele momento, não era relacionado ao desejo, nem à paixão, apenas uma calma e uma paz interior divinos. Caminhamos alguns metros até escolher um filme horrível (ou que se tornou horrível posteriormente) e comprar as entradas para o cinema.
Eu estava em estado de graça, cada palavra que saia dos lábios dela era como versos de uma canção, sua voz era melodiosa, seu sorriso metálico encantador e seus olhos a expressão da complexidade e da pureza interior que ela possuía. Eu, pela primeira vez, experimentava ao lado de uma mulher um estado de calmaria, perplexidade e vislumbre simultâneos esplêndidos.
Naqueles poucos minutos, eu não somente tive a certeza de que se tratava de uma pessoa especial, mas um ser com essência angelical, havia algo de divino naquele corpo aparentemente frágil. E a mente insone que habita em meu coração conscientemente reconheceu isso. O meu olfato sentiu a fragrância de flores enquanto eu caminhava a seu lado e meus outros sentidos estavam em absoluto estado de contemplação. Até mesmo minha personalidade insaciável apresentava-se tranqüila, serena e em júbilo naquele momento.
Amei tudo isso, cada instante, cada segundo. Toda e qualquer palavra seria incapaz para descrever aquele momento. E eu tinha tanto a dizer. E iria dizer... Mas não naquele momento, eu precisava gozar de mais alguns minutos daquela parte do paraíso terreal, daquela paz divina. Decidi que esperaria até o fim do filme para dizer tudo o que eu até então havia sentido e o que desejava: estar do seu lado sempre, que tinha plena convicção de que poderia procurar por décadas que jamais encontraria alguém com essa essência, de que admirava o seu jeito de ser, o amor pelos animais, sua sensibilidade com as palavras e com a música, sua sensatez, prudência e ponderação ao conversar, que eu gostaria de viver uma história com ela do modo mais sublime possível, que ela não era somente um anjo encarnado, mas a realização de um sonho de toda uma vida.
Entramos na sala de cinema, ela escolheu a segunda fileira de assentos. Acomodamos nas poltronas, ela com sua constante graciosidade. Minutos depois o celular dela toca, ela responde com a melodia alegre de sempre, mesmo sem saber quem era. Aos poucos, sua face vai ganhando outra forma. A alegria estampada em sua expressão dá lugar à tristeza. Ela desliga e percebendo sua aparente transformação faço aquela pergunta tradicional que todos sabemos a resposta: “aconteceu alguma coisa?”. Embora nós nunca saibamos o que realmente aconteceu, sempre temos a certeza de que algo ruim aconteceu. Ela responde com a voz entrecortada pelas lágrimas que já começavam a brotar dos seus olhos: “meu pai faleceu...”. Aquela frase me atingiu com uma força imensurável. Provavelmente eu tive a mesma sensação que "Lu" teve ao ser expulso do Paraíso por Deus.
Tentei acolhê-la em meus braços, como o pai acolhe o filho envolto em tristeza. Em vão. Tentei dizer palavras de consolo, falar de Deus, segurei sua mão firmemente na tentativa de transmitir alguma força, também em vão. Beijei sua testa em sinal de respeito, e percebi que ela não reagiu, permaneceu imóvel, como uma estátua de mármore.
Mesmo envolvida por sua tristeza inconsolável, era extremamente bela, só que agora não era um anjo encarnado, era um anjo de mármore com a expressão do sofrimento humano. Lágrimas fluíam pela sua face, tal como as imagens milagrosas que choram. Não somente compartilhei da sua dor, como também comecei a imergir na minha própria dor, a dor egoísta de saber que nada do que eu havia planejado poderia acontecer mais. Parecia que o sonho conhecia seu fim precipitadamente e eu deixava o Paraíso e sua luz.
Como os humanos fazem quando começam a mergulhar nas trevas, comecei a orar. Segurei a mão de mármore, beijei-a e comecei a orar, mas não por mim, por ela. Para que Deus pudesse trazer algum conforto para seu coração e espírito. Supliquei a Ele que fizesse isso por ela e por mim, porque o sofrimento dela me atingia intensamente. Clamei por ajuda dos anjos, silenciosamente gritei alto seus nomes: Gabriel, Rafael, Miguel e Uriel, que apaziguassem aquele coração, que viessem em socorro do anjo mais belo que havia na terra. Se Ele ou eles não pudessem se fazer presentes, sugeri que me utilizassem como instrumento para consolar aquela alma. Porém, nem minha fé, minhas súplicas e meu clamor foram capazes de aliviar seu sofrimento, acredito que nem em uma ínfima parte. Senti-me totalmente impotente diante de tudo. Eu havia deixado a luz do Paraíso e estava perdido no Jardim Selvagem ao lado do anjo de mármore.
Naquele momento ela tornou-se inalcançável para mim, talvez para todo o sempre. Nenhum gesto meu conseguiu despertá-la daquele pesadelo. Acabou o filme, saímos, comprei uma rosa, entreguei-a ao anjo, que me recebeu com um abraço, por um instante senti seu calor e simultaneamente seu sofrimento e impassibilidade diante do meu gesto. Acompanhei-a até o ponto de ônibus, presenciei mais momentos de sofrimento, tentei e fracassei mais algumas vezes em consolá-la com gestos do afeto mais puro e abraços os mais sinceros possíveis, tudo inútil. Fui vencido pela sua dor, vivi o sofrimento dela através das suas lágrimas, que naquele momento jorrava vida, como se fosse composto não por água e sal, mas por sangue. Meu coração verteu lágrimas ao contemplar aquela imagem.
Ela se foi, talvez para sempre. O choro contido invadiu meus olhos, tal como um rio furioso rompe a represa. Corri o mais rápido que pude e o vento parecia cortar minha face e espalhar minhas lágrimas pelo rosto. E na minha mente encontrava-se a imagem do anjo chorando e pela primeira vez minha alma sofreu pela dor de outrem. Curiosamente, foi a imagem mais bela e terrível que eu já vi e possivelmente verei: o choro de um anjo petrificado pela dor da perda.
Amei a Criação do momento de maior alegria e júbilo ao momento de maior dor e sofrimento. Apreciei a beleza do Paraíso e contemplei admirado a formosura do Jardim Selvagem. Fui tocado pela essência daquele anjo do primeiro momento que a vi até sua despedida. Contemplei a maravilha dos seus olhos esverdeados, sofri com eles inundados. Amei-a do modo mais puro, humilde e sublime, sem nenhuma paixão que perturbasse meus sentidos, do primeiro ao último minuto. Fui libertado por isso, porém ela se aprisionou em seu cárcere de mármore.

Não consigo ajuntar as palavras, muito menos tecer algum comentário. Texto imensamente trágico e triste.
ResponderExcluirLendo o texto me veio mais uma vez a certeza que, não devemos idealizar demais, nem criar muita expectativa diante dos futuros acontecimentos. Quado o fazemos e nada acontece como prevíamos, a decepção é maior. Isso é viver com os pés no chão. Infelizmente o mundo, hoje, nos pede isso.