O segundo livro da
trilogia “Filhos do Éden”, Anjos da Morte, de Eduardo Spohr, resgata a história
de Denyel (e não Daniel!), o anjo exilado que faz sua primeira aparição no
primeiro livro da trilogia, “Herdeiros de Atlântida” e tem papel fundamental na
trama. Além de resgatar a história de Denyel como anjo da morte, como são
designados os exilados que supervisionaram as ações nas guerras humanas, o
livro dá continuidade ao primeiro, no prosseguimento da saga de Kaira e Urakin,
além do novo integrante da missão, Ismael.
Dessa forma podemos
dividir o livro em duas partes: uma trama que conta a degradação de Denyel, nos
tempos de guerra (1944-1989) e a busca e a missão de resgate de Denyel
capitaneada por Kaira, passada no tempo presente. Apesar dessa parte do trio de
Kaira se passar após os eventos do primeiro livro, creio que pode ser lido sem
conhecimento do primeiro, já que a história segue um curso que não requer
obrigatoriamente que se tenha lido o primeiro, apesar de isso ajudar bastante
no entendimento da missão e as referências a alguns fatos que acontecem ali. Os
livros podem ser lidos separadamente, em ordem distinta, sem maiores problemas,
mas a leitura prévia do primeiro livro e também do outro livro do autor, “A
Batalha do Apocalipse”, são altamente recomendáveis de modo a se entender as
referências que ali constam, sendo esse o que possui menor número de
referências, mas elas estão lá, como no boato de que o Arcanjo Gabriel poderia
ter se aventurado alguma vez no mundo dos homens e amado uma mulher.
Dos três livros desse
universo angélico escritos pelo Eduardo Spohr, esse é o livro mais humano
deles. Como diz o autor em sua dedicatória para o pai, a guerra é capaz de
despertar o melhor e o pior em um ser humano e ao longo da história de Denyel
notamos vários atos humanos dignos de serem ovacionados, bem como notamos a
crueldade das guerras. Percebemos como Denyel vai se tornando cada vez mais
humano, o que não é necessariamente uma coisa boa, pois ele agrega sentimentos
nobres, mas também os vícios de nossa raça. Além disso, é o livro que aprofunda
mais a questão da humanidade, tema que começou a ser desenvolvido no primeiro
livro da trilogia, com Kaira e nesse ganha novos contornos e personagens, como
o inesquecível Tom Craig. Apesar de ainda possuir criaturas místicas, magias
(com a exploração do ocultismo nazista), o foco é o lado psicológico de Denyel
e suas reflexões e ações nas guerras, a deturpação dos seus valores de casta e
a sua humanização.
Spohr demonstra seu
trabalho intenso de pesquisas com mapas, descrição de armas, localidades,
estratégias de guerra, história, referências bíblicas e tudo mais nesse
trabalho que deve ter sido o que exigiu mais de sua carreira de escritor. Os
nomes dos capítulos e das partes dos livros também nos remetem a outras obras
literárias, como o capítulo “No Coração das Trevas”, no qual a cena ali
descrita nos remete à obra de Joseph Conrad, “O Coração das Trevas” e a filmes
como “Por um Punhado de Dólares”, homenageado com um capítulo de mesmo nome,
mostrando parte de todas as referências que inspiram o autor em sua carreira.
Filhos do Éden: Anjos
da Morte mostra um escritor mais maduro, uma obra em que o lado sombrio do ser
humano, refletido nos personagens humanos e também em Denyel, e o mais nobre se
relacionam de modo dialético. O fato de o livro estar dividido em dois
seguimentos tão distintos poderia ser um problema, mas acaba que a saga de
Kaira sendo um alívio momentâneo para a intensidade da saga de Denyel e seus
conflitos psicológicos. Um excelente livro mais uma vez, a meu ver, superior ao
primeiro da saga e altamente recomendável.

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